As Cores da Adolescência

As Cores da Adolescência

Você sabia que o termo Adolescência foi criado no final do século XIX?

A palavra tem origem no do latim adulescens ou adolescens – particípio passado do verbo adolescere, que significa crescer. Porém, o significado que popularmente utilizamos atualmente (um período situado entre a infância e a adultez) só foi criado no final do século XIX.

Sendo um termo tão recente, a compreensão acerca da adolescência vem se modificando e aprofundando ao longo dos anos. De maneira geral, a adolescência é compreendida como a fase de transição entre a infância e a adultez e vai mais ou menos dos 12 aos 20 anos.

Essa fase traz muitas transformações: há um salto no desenvolvimento cognitivo, o corpo cresce em uma velocidade maior e traz novas características, há uma alta circulação hormonal que causa alterações de humor, apetite e atenção. Com tantas mudanças, a principal questão da adolescência é a grande Crise de Identidade. Adolescentes estão mergulhados na construção do seu novo Eu e das implicações que essa nova identidade traz para suas vidas, essa é uma fase de muitas experimentações.

Como reflexo desse processo de individualização, maturidade cerebral e flutuação hormonal, os jovens costumam apresentar dificuldades em lidar com as próprias emoções. Essa falta de maturidade emocional é um desafio para pais e professores, que sentem-se perdidos e desconectados de seus filhos e alunos.

E se eu te contar que, além da adolescência que acontece na juventude, nós podemos viver pelo menos mais duas ao longo da vida?

Você já ouviu falar sobre “Os terríveis dois anos”? Este foi o nome dado para uma fase do desenvolvimento dos bebés que acontece por volta dos dois anos de idade. Este período, também conhecido como Adolescência dos bebés, é marcado pelas famosas “birras”.

Muitos pais percebem que seus filhos expressam uma mudança radical de comportamento – ficam mais irritados, tem dificuldades para dormir, choram com mais frequência e apresentam um humor bastante volátil. Em torno dessa idade, as crianças começam a se reconhecer como indivíduos, como alguém separado de seus pais, com vontades, interesses, opiniões próprias e uma grande necessidade de tomar decisões para validar essa individualidade.

Aos dois anos, o cérebro de um humano ainda não está plenamente desenvolvido, o que torna a nossa capacidade de avaliação, tomada de decisões, interpretação perigos e gerência de emoções, bem limitada. A soma dessa falta de habilidades e maturidade cerebral com o alto interesse pela autonomia, é como uma bomba química no cérebro de uma criança – frustradas, elas secretam altos níveis de hormônios de estresse, o que acaba por dificultar ainda mais o pleno processamento das informações.

É neste período também que as crianças estão em pleno desenvolvimento e aprimoramento de habilidades físicas mais complexas. Assim como na adolescência, há uma rápida transformação física – nesta fase, deixam de ser bebés e dão entrada na infância.

Agora, existe um outro período da vida em que é possível experimentar bastante semelhanças: após o nascimento dos filhos. O período de pós parto também é caracterizado por alterações físicas, hormonais e emocionais. A mulher recém mãe, estranha sua nova forma corporal e pode não se reconhecer no próprio corpo. O fim da gravidez, aliado com a amamentação, geram grandes alterações hormonais que podem levar a mudanças bruscas de humor, tristeza e irritação. Os sintomas físicos somados com as constantes demandas de um bebé recém nascido, a atuação neste papel de mãe e o impacto da chegada do bebé em toda a rede de relacionamentos e de outros papéis e ações, a mulher passa a experimentar uma grande transformação na sua identidade.

Este período da vida adulta de uma mulher pode ser chamado de Matrescência – a adolescência das mães. Este nome vem tornando-se popular a partir do trabalho da Dra. Alexandra Sacks, uma psiquiatra americana especialista em maternidade e paternidade.

Dra. Sacks procurou novas abordagens possíveis para o pós parto após várias mulheres apresentarem queixas e dificuldades muito parecidas durante sua entrada na maternidade. Em suas pesquisas, encontrou estudos antropológicos que relacionam essa transição das mulheres com a adolescência.

E porque conhecer esses conceitos e definições é importante? Quando desmistificamos esses períodos desafiadores podemos nos colocar como observadores dispostos a acolher àqueles que passam por isso – sejamos nós mesmos, as crianças, os jovens ou as mulheres mães.

Compreender as transformações e o porquê certos comportamentos são desencadeados, abre espaço para respostas mais efetivas e conscientes dentro destes relacionamentos, seja com o seu filho, seu aluno, uma amiga ou familiar.

Costurar as semelhanças destes períodos da vida, nos ajudar a compreender os sentimentos que experienciamos, a sermos mais pacientes e compassivos – connosco e com ou outros. Diante de um bebé que se joga no chão, de um jovem que bate a porta do quarto ou de uma mulher que chora com seu bebé nos braços, podemos fazer o exercício de nos colocarmos naquela posição e lembrarmos de como gostaríamos de ser tratados e acolhidos.

Perceber essas semelhanças humanas nos aproxima uns dos outros, desperta a empatia e a lembrança de que estamos todos conectados. A partir deste lugar, podemos parar de reproduzir discursos violentos, como: “essa criança manipula a todos, só faz birra!” “esse jovem precisa mesmo é ser castigado para aprender a portar-se bem” ou ainda “essa mãe chora à toa, deveria estar feliz por ter seu bebé saudável”. Esses são rótulos que em nada nos auxiliam no processo de crescimento e amadurecimento emocional, mas ao contrário, nos aprisionam em comportamentos rígidos e emoções menos boas.

Durante o mês de Outubro, vamos partilhar contigo sobre as diversas cores que a adolescência assume ao longo do desenvolvimento humano e como podemos lidar com os desafios de maneira efetiva, amorosa e acolhedora, visando o desenvolvimento de seres humanos saudáveis, equilibrados e felizes.